de picareta na mão Só perdendo percebi. Privar a língua de sabor era matar o corpo e matar o corpo impedi-lo de ser e experienciar o início e o fim. Agarradas à pele músicas de uma nota só. Afora corpórea, acolá passos seguros para a frente e trás. Sururus sórdidos, um velho espectáculo itinerante plugando ausências e tarefas caladas, eram as nossas favoritas. As línguas explicavam tudo a partir da dor e da devassidão. Voltando às notas de uma só, cortejada num tango lento enquanto roíamos os dedos com negligente fluído, mudáramos a forma no escuro. A minha língua era uma coisa, eu outra. Ela nutria-se de palavras, eu nem capaz seria de roubar forças ao sol sobre nós. A minha sina era saber que aos quarenta e cinco encerrava uma parte da existência. Bicava restos ao passado, em vão, como os pombos faziam no parapeito da cozinha envelhecida. A apunhalar espíritos esquivos, destruindo qualquer ...
pegada digital transitória: fragmentos de escritos mais extensos [já publicados e no prelo], e breves comentários a textos com vozes ecoantes, seminais, inexplicabilis... Soraia Simões de Andrade