Excerto PT ~ Antes da viagem transformei a antiga bobine de cabos industriais em mesa que logo suportou velhos periódicos. Ia de novo a Berlim. Encarava aqueles pedaços de papel não como arquivo, mas como matéria de investigação subjectiva em ligação crescente à cidade. Diferente dos antigos apparatchik do aparelho político, que organizam a opressão com a paciência burocrática dos mesquinhos, a montagem desses fragmentos conservava as estirpes efémeras, que o tempo procurou apagar. Eles dialogavam com os de hoje, como se os do presente nada pudessem ser sem a sua existência. As releituras ganhavam novas sinuosidades, mais evasivas, cada vez que, à noite, nos dormitórios femininos onde descansava, contava a outras viajantes a minha obsessão com esta cidade. Falava dela como se fosse entidade ética, onde a história nunca deixa entorpecer a vigilância. Os dormitórios em Berlim são o último sopro comunitário do nómada. Nunca fico em hotéis, os hotéis são para quem possui identidade fixa, s...
DEO IGNOTA
pegada digital transitória: fragmentos de escritos mais extensos [já publicados e no prelo], e breves comentários a textos com vozes ecoantes, seminais, inexplicabilis... Soraia Simões de Andrade