Avançar para o conteúdo principal

Outra Míngua




Outra Míngua 
texto de Soraia Simões de Andrade 
desenho de Elagabal Aurelius Keiser 
paginação de Fernando Ramalho
capa de Alexandre Nobre 
pp.88
colecção ثريا
AH! 2025

~

«Aquele retrato não era mais a imagem fotográfica das matriarcas. Era um orifício de luz no forno comunitário sem a comunidade, não havia grãos de fina moagem nos seus tabuleiros e bilhas. Um mercado de transístores onde todas falavam energicamente mas nenhuma escutava. Os ruídos e perigos cruzados de uma pequena sociedade atomizada sem partículas sólidas; uma cabeça sem ouvidos, uns pés sem ter­reno. Era a película nevrálgica da impostura, alarme viperino da pudicícia, céu do inferno, sentinela do desejo; bloco de pedra com que fizeram a figura impiedosa que treinava patos à míngua nos lagos e se satisfazia ao vê-los trinar com fastio. Era a força de mãos excêntricas que corriam atrás de pombos e mochos para apanhar esmolas no alcatrão. Mas, era também a filosofia de alguém abandonado num baldio. A moldura da família trabalhadora, migrante e neurótica, cadinho de iras e doçuras. Um tripé de câmera no quadripé, um saltério e um motociclo herdados com testamento. Área fílmica da contex­tura social, do denodo e dos laços a cultivar. Uma estação de folhas devoradas por lepismas prateados. A terra perseguida pelo extremismo da História. Um pulmão onde recriaram marcas suspeitas dos abusos na origem. Assim era ele, uma imagem eidética que quanto mais crescia menos envelhecia.» (p.74)

~

 «Elas desfilavam as mãos e possuíam as carnes como se o mundo acabasse; abriam as palmas deixando uma folga entre os indicadores. Tinham as fossas nasais iguais às dos cirros; arrancavam as penas do forro das almofadas e com elas escreviam peças. Tinham mãos granadeiras, viris como qualquer herói decadente da segunda grande guerra, aptas a espetar um prego de caverna na madeira do bosque com a mesma delicadeza da enfermeira que as vestirá antes do enterro depois de lavar os pés à pecaminosa com sal marinho e biocidas, por saber que o céu nunca lhe perdoaria.» (p.20) 
____





muralsonoro.info@gmail.com 
https://www.muralsonoro.com/edicoesah/outra-mngua
Distribuição da Livraria Tigre de Papel 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fragmentos

  Já anda por aí o número 4 do Cavalo Velho. Uma edição da VS Editor com a direcção de Diogo Paiva e João Bicker. Fica aqui uma imagem com o meu contributo, um pequeno ensaio meio free-jazz onde a intérprete Elizeth Cardoso, a dama que celebrizou "Barracão" [de Zinco ], o escritor e as escritoras Aimé Césaire, bell hooks, e Marguerite Yourcenar dialogam com o repertório da escritora-catadora de cartão e de sonhos Carolina Maria de Jesus.

Fragmentos

EP 6 -  Da morte ontológica da arte ao Karaoke Bar nos escombros #6 Para ouvir podem subscrever o Intempérie no SoundCloud ou no Spotify . A “morte da arte” não implica que os ditos “artistas” venham a cessar a sua actividade industrial, essa produção de insólitas mercadorias para decoração dos apartamentos vazios e alvíssimos de Manhattan, e dos salões também brancos das galerias, ou performances e eventos para animar a black box do centro cultural da esquina. Todavia, a arte perdeu o seu lugar de privilégio: pouco revela sobre a verdade (Hegel), não orienta as alminhas deste purgatório para o além ideal (Platão), já não progride segundo narrativa temporal provida de τέλος (Danto) e deixou de conseguir ser ponto de fuga ao mercado, à alienação e ao circuito controlado e totalitário das imagens (Baudrillard). Tentaremos aqui também esboçar os prolegómenos a toda a ilusão contemporânea e futura: a fé supersticiosa de que ainda podemos ser “artistas”, quando a realidade é apenas de...

Fragmentos

Excerto PT ~ Antes da viagem transformei a antiga bobine de cabos industriais em mesa que logo suportou velhos periódicos. Ia de novo a Berlim. Encarava aqueles pedaços de papel não como arquivo, mas como matéria de investigação subjectiva em ligação crescente à cidade. Diferente dos antigos apparatchik do aparelho político, que organizam a opressão com a paciência burocrática dos mesquinhos, a montagem desses fragmentos conservava as estirpes efémeras, que o tempo procurou apagar. Eles dialogavam com os de hoje, como se os do presente nada pudessem ser sem a sua existência. As releituras ganhavam novas sinuosidades, mais evasivas, cada vez que, à noite, nos dormitórios femininos onde descansava, contava a outras viajantes a minha obsessão com esta cidade. Falava dela como se fosse entidade ética, onde a história nunca deixa entorpecer a vigilância. Os dormitórios em Berlim são o último sopro comunitário do nómada. Nunca fico em hotéis, os hotéis são para quem possui identidade fixa, s...