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Fragmentos

Excerto





PT

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Antes da viagem transformei a antiga bobine de cabos industriais em mesa que logo suportou velhos periódicos. Ia de novo a Berlim. Encarava aqueles pedaços de papel não como arquivo, mas como matéria de investigação subjectiva em ligação crescente à cidade. Diferente dos antigos apparatchik do aparelho político, que organizam a opressão com a paciência burocrática dos mesquinhos, a montagem desses fragmentos conservava as estirpes efémeras, que o tempo procurou apagar. Eles dialogavam com os de hoje, como se os do presente nada pudessem ser sem a sua existência. As releituras ganhavam novas sinuosidades, mais evasivas, cada vez que, à noite, nos dormitórios femininos onde descansava, contava a outras viajantes a minha obsessão com esta cidade. Falava dela como se fosse entidade ética, onde a história nunca deixa entorpecer a vigilância.
Os dormitórios em Berlim são o último sopro comunitário do nómada. Nunca fico em hotéis, os hotéis são para quem possui identidade fixa, sem acidentes, ou percursos que se querem esquecidos. Da última vez partilhei beliche com uma actriz de Munique e o odor quente de casacos defumados nos clubes de tecno.

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Começara o dia em Prenzlauer Berg e logo ali, na Kollwitzplatz, a memória de Käthe Kollwitz tomava conta das conversas, afinal nestas viagens tinha despertado para as mulheres que davam nome a algumas das praças e ruas da cidade, e Kollwitz, uma das artistas mais interessantes do expressionismo alemão, tinha ali vivido aproximadamente meio século. 
Meia hora antes, ainda no dormitório, uma das viajantes discursava com vigor sobre banalidades da Ilha dos Museus; eu pensava, sem o verbalizar, como a perversidade também se tornou banalidade no decorrer das guerras prussianas e napoleónicas, como a de transformar obras de bronze em balas de canhão. Por baixo de mim, a actriz de Munique interrompia o fluxo da conversa para dizer que nós, viajantes, também éramos como esses objectos de Museu que, depois de deslocados, não voltavam iguais. 

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DE

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Vor der Reise verwandelte ich die alte industrielle Kabeltrommel in einen Tisch, auf dem sofort alte Zeitungen Platz fanden. Ich fuhr wieder nach Berlin. Ich betrachtete diese Papierstücke nicht als Archiv, sondern als Material für eine subjektive Forschung, die sich zunehmend mit der Stadt verband. Anders als die einstigen Apparatschiks des politischen Apparats, die die Unterdrückung mit der bürokratischen Geduld der Kleinlichen organisieren, bewahrte die Zusammenstellung dieser Fragmente die kurzlebigen Linien, die die Zeit auszulöschen versucht hatte. Sie führten einen Dialog mit der Gegenwart, als könnten die Menschen von heute ohne ihre Existenz gar nicht bestehen. Bei jeder Nacht in den Frauenschlafsälen, in denen ich mich ausruhte, gewannen die neuen Lesarten neue, flüchtigere Windungen, wenn ich anderen Reisenden von meiner Obsession mit dieser Stadt erzählte. Ich sprach über sie, als wäre sie ein ethisches Wesen, in dem die Geschichte die Wachsamkeit nie einschläfert.
 
Die Schlafsäle in Berlin sind der letzte gemeinschaftliche Atemzug der Nomaden. Ich übernachte nie in Hotels. Hotels sind für Menschen mit einer festen, unerschütterlichen Identität oder für jene, deren Lebenswege und Zwischenfälle in Vergessenheit geraten sollen. Beim letzten Mal teilte ich mir ein Stockbett mit einer Schauspielerin aus München und den warmen Geruch von Jacken, die nach den Technoclubs nach Rauch rochen.
 
Der Tag begann im Prenzlauer Berg, und gleich dort, am Kollwitzplatz, dominierten die Erinnerungen an Käthe Kollwitz die Gespräche. Schließlich hatte ich auf diesen Reisen ein Bewusstsein für die Frauen entwickelt, nach denen einige Plätze und Straßen der Stadt benannt sind. Kollwitz, eine der interessantesten Künstlerinnen des deutschen Expressionismus, hatte dort ungefähr ein halbes Jahrhundert gelebt.

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