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Fragmentos

 
Intempérie 10 






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Talvez a interrogação mais urgente não seja se a literatura acabou, mas se conseguimos produzir alguma coisa que não seja a reciclagem retórica mercantil da sua morte. O vácuo tornou-se especialização, a inexistência galhardeou editores, a transgressão angariou financiamento e até o funeral da literatura parece ter achado brilhante carreira académica. É neste lustroso boião de cultura que retiramos o caramelo envenenado de Murphy, o primeiro romance de Beckett. Após Beckett, tornou-se relativamente acessível parecer profundo: fugimos à narrativa, retalhamos o sujeito, exercitamos a impossibilidade da linguagem e condimentamos com um pouco de vazio no fim. A dificuldade está em empreender o que Beckett fez, e que tanto se imitou posteriormente: arquitetar a forma em sintonia com a necessidade de ruptura existencial autêntica, e evitar que a vida seja acrescentada como rótulo de museu. A vanguarda acabou em instituição, mas aqueles que a conheceram por dentro talvez perguntassem hoje se a destruição tem algum valor, quando não conduzida pela transformação daquele que a opera.


Bibliografia

Samuel Beckett - Murphy

Jean-François Lyotard – Leçons sur l’analytique du sublime

Alain Finkielkraut - La Défaite de la pensée

Peter Sloterdijk - Kritik der zynischen Vernunft


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