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Fragmentos

 O Imenso Comércio do Nada XVII


Público, privado, política, o esgoto a céu fechado







Dizem-nos que nem todo o líder, ou aspirante, parlamentar é o nómada de quatro piscas encandeado pelo manual retrovisor da História oficiosa; nem toda a política partidária proveio do funambulismo, do mínimo esforço intelectual, da desagregação do real, das porfias difamatórias. Dizem-nos que nem todos os que são incapazes de aceitar uma estrondosa derrota e não se demitem vêm das bancadas universitárias, são onanistas, começaram o curso como-estar-sempre-deputado em juventudes partidárias onde o sistema é mais-e-menos teórico consoante os teoremas se repetem e as soluções surtem problemas de primeiro grau. Porém, também tenho visto que os que se condoem com um dispositivo estilístico brejeiro na hora de desenhar futuros que reafirmam pouco-nada-promissores enaltecem: as acnes rosáceas de um, os escândalos empresariais do outro, tudo, como ditam as normas, sob risinhos de Molière antianalógicos.

De futurologias sobredistendidas a glosas americansadas, dos travões na linguagem às pequenas vírgulas nas perspectivas à espera de agenda, ou de uma validação na rede política, há um discursante destravado que reaparece e me diz assim: – Contra os votos, poucos argumentos. 

E fico a cogitar, quase-muda por vezes, se a coroa da política perder o lustro, se a confiança se esvair, o que nos restará será o escândalo, a inexactidão da figura-feita-pública, os comentaristas adivinhos, os “filósofos” new-age, a pornografia do televisor, o erotismo série B do feicebuque e tique-toque.

Uma vez, na Colômbia, Fernando Pertuz, artista-performer, apresentou uma obra desconcertante, mal-cheirosa, a real fealdade dos tempos, numa galeria de arte: defecou à frente do público e, de seguida, de maneira cerimoniosa ingeriu as suas fezes. 

O triunfo de um tal volovelismo de descartados, não é, com certeza, de quem vota em protesto ou admiração genuína nos que pilotam esse voo; talvez até seja mais da inércia, do desprezo a que votamos certas ideias; não tanto de quem, na cúspide, verbaliza uma tal de desmaterialização do mundo a partir do ataque  à proliferação de seitas, quando, com efeito, a maioria das pessoas, como vimos recentemente, entende e pratica uma ética por via da fé religiosa. E, se a arte performativa é um jogo de pose e aparência, se os ansiolíticos, os antidepressivos, os antipsicóticos governam um número, a não desconsiderar, de cidadãos, não é só por que a política partidária se desembaraçou à frente de todos os utentes-espectadores no Serviço Nacional de Saúde e, particularmente, nos problemas da saúde psíquica das pessoas, é porque não está a cumprir a sua função primordial. Não há palco que os-nos salve. Não por acaso os políticos profissionalizaram-se como alguns “artistas” – Joana Vasconcelos, Pedro Cabrita Reis, ou influenciadores digitais – mediáticos e por isso querem ser vistos, gravados, exibidos lado-a-lado. 

Este problema, o do parlamentarismo de esquerda, é antigo mas convém enfrentá-lo; entre o público e o privado, há a política e um esgoto a céu fechado.



este fragmento integra um conjunto de ensaios maiores [prelo] que iniciei em 2021; alguns dos fragmentos têm sido republicados pelo jornal EsquerdaNet

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