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Fragmentos

O Imenso Comércio do Nada XXV Tratados sonoros do Vão Combate  “Peguem nas vossas cadeiras e nos vossos copos de chá, sem esquecerem o rum, e cheguem-se aqui para junto do fogão de sala. É bom estar confortavelmente aquecido, quando se fala do frio”.  Assim principia um dos contos de Bertold Brecht coligido em Kalendrgeschichgten , ao arrepio das interpretações do âmbito moral religioso parece gritar algo quase esquecido: na grande orquestra da vida precisamos uns dos outros como uma música depende de um ouvido humano para a escutar.  Brecht embrulha de presente um ‘simples’ conto natalino para outros sem lar nessa noite mas o que talvez não previsse é que o pequeno texto pudesse continuar a criar um laço com  leitoras e ouvintes vida fora, aquelas cujas vidas levaram a que tivessem de reinventar a noção de família desembrulhando no último mês do ano reminiscências de aversão pelos Natais violentos. Ao desprender os cordéis que atam presentes não desejados, sem nece...

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O Imenso Comércio do Nada XXIV Viver os instantes: o que fica do que foi?      Talvez muita gente considere que na nossa aldeia global todas podem ser historiadoras e filósofas, e que a história e a filosofia são desprovidas de entusiasmo e sagacidade numa época de atenção abreviada. Tentamos mostrar que não é bem assim. Que estas disciplinas são uma força vital e comunicam entre si, que algumas das melhores fontes para encontrar indagações e pensamentos filosóficos densos e dimensões históricas que nos explicam enquanto sociedade são os discos e  as conversas com compositoras.       Os substantivos femininos ficção e realidade são o pentagrama ideal para discutir provocações e problemas que intrigam as comunidades artísticas e a sociedade, como sejam a condição da mulher compositora (as suas aspirações, conquistas, dificuldades), o querer, o poder e a vontade, o eterno retorno de todas as coisas na arte e na história, a transmutação de valores d...

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  Os Sons Decidem por onde ir (Hans Otte)      Toda a linguagem pode ser nociva, mesmo a que eventualmente achamos que não; exactamente por não nos ser possível viver a vida de outros, as apreensões de outros, o corpo de outros, o que palavras vãs a mais provocam nos outros. Achar que as expressões verbais não carregam todas juízos, todas... sem excepção, é estar à parte do mundo senciente, donde da arte, donde da vida. Se estamos dentro da nossa vida (das nossas constelações) não é possível estar dentro a avaliá-la; se assim fosse, como o mundo é infinito e o nosso cérebro não o consegue cobrir na totalidade, todas as ideias, todos os estímulos, andaríamos sempre frustrados. O monólogo como forma "importantíssima" de crítica num mundo de estímulos e contrastes é o álibi perfeito de sociedades pândegas serventes a quem custa encarar o grande simulacro da sua concepção de inactualidade cultural.      Em 188...

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  O Imenso Comércio do Nada XXIII Cultura? Estar entre * Usamos o substantivo feminino cultura a partir da nossa concepção: estar entre. Estar entre prestar culto a um ou diversos cultos. Cingimos cultura a quaisquer objectos artísticos; não omitindo a sua inseparabilidade dos distintivos de classe e ratificando a impossibilidade de abstrair artistas e obras musicais mais do que do lugar de onde provêm das emoções estéticas e sociais que experimentam e provocam.  Imaginem a cultura enquanto um curso de água natural: heterogéneo, indiferenciado. Esse curso está entre. Durante o percurso acolhe trajectos de rios, ribeiros, lagos, poças; a jusante parte de uma tabulação dos valores das diversidade e diversão, do entretenimento; todos mergulham no curso como fuga ao tédio, ao hermetismo, a certas manifestações da vontade. Ao acompanharmos este movimento aparentemente natural, vemos como esse curso de água desagua, irremediavelmente, num lugar prenhe de líquidos convertidos, apesar...