Avançar para o conteúdo principal

Fragmentos

Glória
Tive uma amiga num grupo de teatro do secundário, a Glória, que contava a história da vida das abelhas num jardim perto da escola onde costumávamos ir fumar erva sempre que algo de muito mau nos acontecia, uma tentativa gorada de nos descontrair: a erva e a história das abelhas. Era mística, falava pouco, mas quando abria a boca dizia tanto que parávamos o que ali estivéssemos a fazer para a ouvir; recorria a metáforas, adágios, hipálages, conseguia quase sempre destapar algumas verdades com o seu olhar, as nossas experiências ganhavam alguma magnitude à medida que ela as contava por meio de certos alinhamentos verbais; creio que as teremos memorizado involuntariamente como um mantra donde todos os seres, todas as vivências, viriam e acabariam. Daí que quando, no fim do liceu, me apareceu numa prova obrigatória para admissão num pequeno espectáculo itinerante pela primeira vez o conceito “morte da arte” de Hegel (a mostrar que o "material" não seria o essencial na obra de arte mas antes o seu "conteúdo espiritual”) me lembrei logo da Glória, e inventei nessa prova, de componente prática, uma personagem com o seu nome. Hoje recebi uma notícia um bocado triste, esta Glória já não existe, não morreu, já não existe simplesmente...



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fragmentos

  O Imenso Comércio do Nada A europa e seus fantasmas de dominação Weidendammer Brücke, Berlin-Mitte, 2025 A pior mentira é a mentira da candura, da paz, do bom senso do parlamentar ocidental. Já mentimos tanto, já omitimos tantas coisas, que podemos começar a experimentar a honestidade a ver se ela nos cura.  É possível que dentro de poucos anos comecemos a renunciar ao pensamento dimanado da paixão e do desejo, da sinceridade connosco, a temer a angústia, a desenvolver cada vez mais conhecimentos que aproximam o mundo idealizado do que cremos ser o real, a moralizar os pederastas silenciosos numa manifestação ao fim-de-semana que silenciosos ficam como resposta ao chinfrim bélico do mundo. Afinal, a nossa principal característica é ter memória curta e aliviar episodicamente a boa consciência burguesa com acções para ficar tudo na mesma, menos a percepção que outros de nós terão. O drama histórico dos massacres e das limpezas étnicas – Bósnia e Kosovo, Sudão, Ruanda, Congo, S...

Fragmentos

 Bem-vinda ao passado Como qualquer pessoa ligada, apaixonada, à/pela música, também já achei que havia canções feitas para aqui...Esta é uma delas, seria apenas mudar o género, Já morri a morte certa Já senti a fome, aperta a dor Já bati à porta incerta Viajei de caixa aberta, a dor Pecado, fundido, queimado Já desci lá em baixo ao fundo Já falei com outro mundo e então Já passei o limbo limpo Já subi ao purgatório e vou Zangada, bem-vinda ao passado Pecado, arrependido, queimado Zangada, bem-vinda ao passado Pecado, fundido e queimado Zangada, bem-vinda ao passado Pecado, arrependido, queimado

Fragmentos

EP 4 - Política da Arte em vez de Arte política: outro dos aspectos da morte da arte Para ouvir podem subscrever o Intempérie no SoundCloud ou no Spotify Inspirados pela “Carta a D’Alembert sobre os espectáculos” de Rousseau, tentamos explorar outro vector da morte da Arte, a sua instrumentalização enquanto parte da política de entretenimento que nos quer passivos a salivar perante o espectáculo da liberdade, da democracia e da suposta abundância. Método ancestral de nos reduzir à função de focas amestradas que batem palmas ou assinam em cruz um cheque em branco às elites políticas. Conversas anartísticas e profundamente comprometidas com os estados dos espíritos ou Um espaço de crítica livre sobre os infortúnios da história cultural e das artes com Elagabal Aurelius Keiser e Soraia Simões de Andrade com indicativo sonoro de Xana (Imagem do podcast sob Agathos Daimon, pintura de Elagabal Aurelius Keiser). Para quem nos quiser continuar a enviar eventuais perguntas, comentários ou suge...