Quantos autores andarão por aí de nariz e olhos e bocas no ar, sem olhar para o chão que pisamos, desconhecendo a argila onde se moldaram as formas mais indizíveis? Essa argila que, frágil quando tocada, os poderia descolar à farsa anarco-burguesa através da qual olham o universo lá de cima; conseguindo amiúde algo escandaloso: que até as mentes mais incautas enjoem as poses ensaiadas frente aos espelhos gastos. A escrita só deverá encontrar verdadeiramente o homem ou a mulher quando nem sequer se permitir ao fastio e ao desprezo posto nos salões, já Stendhal e Eça (ironicamente) intuíram, então, não frequentar de todo; já que apenas os bravos, corajosos, seriam amados pelos mestres. Por muito que a diletância se esforce em parecer mal comportada, o tempo não a levará consigo, quanto mais profunda for a entrega ao inexplicável, porque vinda das vísceras, ou do fundo do coração, a palavra escrita, e a imagem virtual da palavra num grau semelhante, será tão familiar à que ouvimos, como nos disse Wittgenstein, que mesmo o passado será futuro; é que a entrega faz objectivamente ver os outros que somos nós, não é o mesmo que nós e os outros. Estamos, portanto, sempre a tempo de não repetir aquilo que condenamos.
O Imenso Comércio do Nada A europa e seus fantasmas de dominação Weidendammer Brücke, Berlin-Mitte, 2025 A pior mentira é a mentira da candura, da paz, do bom senso do parlamentar ocidental. Já mentimos tanto, já omitimos tantas coisas, que podemos começar a experimentar a honestidade a ver se ela nos cura. É possível que dentro de poucos anos comecemos a renunciar ao pensamento dimanado da paixão e do desejo, da sinceridade connosco, a temer a angústia, a desenvolver cada vez mais conhecimentos que aproximam o mundo idealizado do que cremos ser o real, a moralizar os pederastas silenciosos numa manifestação ao fim-de-semana que silenciosos ficam como resposta ao chinfrim bélico do mundo. Afinal, a nossa principal característica é ter memória curta e aliviar episodicamente a boa consciência burguesa com acções para ficar tudo na mesma, menos a percepção que outros de nós terão. O drama histórico dos massacres e das limpezas étnicas – Bósnia e Kosovo, Sudão, Ruanda, Congo, S...
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