Avançar para o conteúdo principal

Fragmentos

[Renascida depois de desejar morte às ideias]
Todas as manifestações ou propostas artísticas com valor que não se materializaram, ou não o puderam ser por que a «sua própria concepção as sufocava», como escreveu Ernst Jünger; ou quem as pensou intuiu que estas não tinham ainda chegado ao centro, ou raiz, ou fundo, para daí poderem partir.
Há sempre uma cortina insondável e resistente nas ideias, mesmo naquelas que, em virtude da forma como as palavras usadas para as exprimir foram organizadas, nos parecem dotadas de transparência.
Para os espíritos que cismam e se procuram desenvolver a partir do centro, o conhecimento fora desse centro recua para segundo plano, é como se, tendo acesso à chave que abre uma casa sumptuosa, aquilo que Jünger designou «chave-mestra», as chaves dos outros quartos deixassem de ter interesse. Por outro lado, as torres que guardam os melhores pensamentos fechados tendem a cristalizar, não permitir que estes se movimentem, tão-pouco se misturem, talvez com receio de perder esse centro. Também é verdade que as ideias em torres fechadas correm perigos, como o de serem ultrapassadas por outros mundos nos quais outras ideias, mesmo que as achemos mais pobres, não jazerão cobertas de pó à espera que alguém as descubra, antes se multiplicam e inscrevem algum tempo entre nós até que todos delas se cansem e, só então, fartos de réplicas sofridas, procurem outras alternativas.



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fragmentos

  Já anda por aí o número 4 do Cavalo Velho. Uma edição da VS Editor com a direcção de Diogo Paiva e João Bicker. Fica aqui uma imagem com o meu contributo, um pequeno ensaio meio free-jazz onde a intérprete Elizeth Cardoso, a dama que celebrizou "Barracão" [de Zinco ], o escritor e as escritoras Aimé Césaire, bell hooks, e Marguerite Yourcenar dialogam com o repertório da escritora-catadora de cartão e de sonhos Carolina Maria de Jesus.

Fragmentos

EP 6 -  Da morte ontológica da arte ao Karaoke Bar nos escombros #6 Para ouvir podem subscrever o Intempérie no SoundCloud ou no Spotify . A “morte da arte” não implica que os ditos “artistas” venham a cessar a sua actividade industrial, essa produção de insólitas mercadorias para decoração dos apartamentos vazios e alvíssimos de Manhattan, e dos salões também brancos das galerias, ou performances e eventos para animar a black box do centro cultural da esquina. Todavia, a arte perdeu o seu lugar de privilégio: pouco revela sobre a verdade (Hegel), não orienta as alminhas deste purgatório para o além ideal (Platão), já não progride segundo narrativa temporal provida de τέλος (Danto) e deixou de conseguir ser ponto de fuga ao mercado, à alienação e ao circuito controlado e totalitário das imagens (Baudrillard). Tentaremos aqui também esboçar os prolegómenos a toda a ilusão contemporânea e futura: a fé supersticiosa de que ainda podemos ser “artistas”, quando a realidade é apenas de...

Fragmentos

Excerto PT ~ Antes da viagem transformei a antiga bobine de cabos industriais em mesa que logo suportou velhos periódicos. Ia de novo a Berlim. Encarava aqueles pedaços de papel não como arquivo, mas como matéria de investigação subjectiva em ligação crescente à cidade. Diferente dos antigos apparatchik do aparelho político, que organizam a opressão com a paciência burocrática dos mesquinhos, a montagem desses fragmentos conservava as estirpes efémeras, que o tempo procurou apagar. Eles dialogavam com os de hoje, como se os do presente nada pudessem ser sem a sua existência. As releituras ganhavam novas sinuosidades, mais evasivas, cada vez que, à noite, nos dormitórios femininos onde descansava, contava a outras viajantes a minha obsessão com esta cidade. Falava dela como se fosse entidade ética, onde a história nunca deixa entorpecer a vigilância. Os dormitórios em Berlim são o último sopro comunitário do nómada. Nunca fico em hotéis, os hotéis são para quem possui identidade fixa, s...