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Fragmentos

O Imenso Comércio do Nada XIII:  moral intergeracional







Ontem no café do meu bairro um vizinho, ex-militar, combatente de Abril, dizia-me no seu jeito encanitado: – O activismo de hoje crê ser o grande beneficiário do progresso.
Acenei mais ou menos afirmativamente, mas com uma provocação: – O senhor estaqueou o andamento no Bloom d’ A Cultura Inculta?
Terei dito algo mais, circunstancial de certeza, não consigo sequer lembrar para poder reproduzir.
Acho que o compreendo melhor hoje do que há um ano, altura em que me mudei para este bairro. Cada vez mais fala-se muito sobre pouco, é um falar à superfície, uma fala reservada sempre que se pode; garantindo alguma inviolabilidade a uma espécie de teleologia que se reconstrói ou metamorfoseia amiúde (sintomas de uma patogenia chamada capitalismo, diria um amigo).
Sentem algum desdém pelos combatentes de Abril? Parece-me, antes, que tendemos a sobrevalorizar uma militância que uns tiveram certamente mas outros não, colhendo até hoje frutos dela. Fantasiamos, quando não exotizamos, entre  disputas da memória, recriações e inscrições do passado. São frágeis os tapumes nos quais há uma propensão para cairmos aquando de uma tomada de posição crítica entre memória, história e esquecimento. 
Uma das funções atribuídas à memória, aturada por Paul Ricoeur, é a de temporalização. Esta percepção intelectual pressupõe uma outra: a noção da recordação como aquilo que há-de perecer como resultado das manipulações, da reificação da partilha, do rememorar, da imaginação sobre as experiências, mormente quando falamos de manifestações sociais, ou de práticas artísticas, nos espaços históricos que eventualmente lhes deram forma.
Deixando de lado o logro incorrido na ira da estandardização hierárquica ao usar a palavra ‘geração’ como fosse este um conceito e, como o são todos, inequívoco; esta geração porventura entusiasma-se com cautela; ao mesmo tempo acredita que a biologia evolutiva, aquela que se esboroa em teorias e cogita sobre a evolução das espécies, pode ser uma parvoíce se a ideia de que na natureza não há pensamento, nem sabedoria, nem coisa alguma que não seja pura genética e puro cálculo de probabilidades [ou dito de outro modo: onde tudo é casual e aleatório] for rebatível um dia, com provas, por um mais-que-humano. Por ser parcimoniosa, é também uma geração defensora de uma literatura que marcou uma altura (como a literatura sobre a tuberculose ou o VIH-SIDA) e uma literatura, nem maior nem menor, que passou de fugida pelos dramas permanentes da humanidade, sendo essa a canónica.
A grande ilusão talvez seja esta, achar que as gerações que nos sucedem, como as que nos precederam, têm sempre algo de sobranceiro, acrítico, nunca colocando a hipótese de que tradição sem questão não é sinónimo de crítica, sabedoria, sequer de progresso. Podemos transferir o mesmo raciocínio para sucessivas tentativas de desmantelamento de ideologias, valores, o Zeitgeist de cada altura.
Da segunda metade do século vinte até esta altura, talvez até se vejam, daqui a trinta ou cinquenta anos, mais semelhantes que distintas gerações. Não bastou construir um paralelepípedo de betão numa geração historicizada ou avessa à Bíblia, já que cada não continuou a ser um sim, mesmo que permaneça na retórica a excepção de Édipo nos sucessivos agoras que todas já foram embora na companhia do pudor.

este fragmento foi republicado pelo jornal on-line Esquerda.Net

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