Avançar para o conteúdo principal

Fragmentos



Recado digital:
vizinho, vizinha, quem quer que sejas, vamos beber um café com cheirinho? Pagas tu. Ouvi há pouco o meu irmão dizer que os marcadores de rua estão caros, mesmo os de candonga e não da Crack Kids, donde para a minha bica-boca terás uns minutos e trocos.
Há pelo menos uma desconhecida que se declara interessada em conhecer-te; tens auxiliado, e não dinamitado à semelhança da maioria dos rabiscos dolentes por estes muros, o meu último ano de caminhadas pela capital dos micro-impérios. 
Mas, sabes, o drama é que nada de muito significativo já se consegue guardar. Metade da gente que por aqui passa é entretida pelos média, tudo se esquece e tudo se aceita depois de uma lavagem cerebral-cosmopolitan-protoenGAJAda. Bem que escreveu a MY que o passado era coisa infinitamente mais estável que o presente. Estes anos não são muito diferentes doutros, é o velhinho zarolho de sempre que regressa: limpa tudo o que é incómodo para tingir sua brancura virtual, cria um grupo de corpos desmemoriados e orquestra-o; fascinados balançam com a má música pois não conheceram outra e assim esta, mesmo quando ruim e desfasada, pode ser aspirada, com frescura possível inspirada, do ar insalubre. 
Mas, sabes, o maior medo não é perder a massa muscular das pernas, é que o cérebro se altere e haja uma perda substancial de memória, sem memória música e sonho são impossibilidades. Não é ser actual, moderno, coisas dessas gastas pelos sentidos que ligam quem deles não nasceu privado — a bem dizer, tudo o que é moderno deixa de o ser um dia depois; talvez por isso te dediques tanto a esta arte-anarte efémera dos murais. 




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fragmentos

  Já anda por aí o número 4 do Cavalo Velho. Uma edição da VS Editor com a direcção de Diogo Paiva e João Bicker. Fica aqui uma imagem com o meu contributo, um pequeno ensaio meio free-jazz onde a intérprete Elizeth Cardoso, a dama que celebrizou "Barracão" [de Zinco ], o escritor e as escritoras Aimé Césaire, bell hooks, e Marguerite Yourcenar dialogam com o repertório da escritora-catadora de cartão e de sonhos Carolina Maria de Jesus.

Fragmentos

EP 6 -  Da morte ontológica da arte ao Karaoke Bar nos escombros #6 Para ouvir podem subscrever o Intempérie no SoundCloud ou no Spotify . A “morte da arte” não implica que os ditos “artistas” venham a cessar a sua actividade industrial, essa produção de insólitas mercadorias para decoração dos apartamentos vazios e alvíssimos de Manhattan, e dos salões também brancos das galerias, ou performances e eventos para animar a black box do centro cultural da esquina. Todavia, a arte perdeu o seu lugar de privilégio: pouco revela sobre a verdade (Hegel), não orienta as alminhas deste purgatório para o além ideal (Platão), já não progride segundo narrativa temporal provida de τέλος (Danto) e deixou de conseguir ser ponto de fuga ao mercado, à alienação e ao circuito controlado e totalitário das imagens (Baudrillard). Tentaremos aqui também esboçar os prolegómenos a toda a ilusão contemporânea e futura: a fé supersticiosa de que ainda podemos ser “artistas”, quando a realidade é apenas de...

Fragmentos

Excerto PT ~ Antes da viagem transformei a antiga bobine de cabos industriais em mesa que logo suportou velhos periódicos. Ia de novo a Berlim. Encarava aqueles pedaços de papel não como arquivo, mas como matéria de investigação subjectiva em ligação crescente à cidade. Diferente dos antigos apparatchik do aparelho político, que organizam a opressão com a paciência burocrática dos mesquinhos, a montagem desses fragmentos conservava as estirpes efémeras, que o tempo procurou apagar. Eles dialogavam com os de hoje, como se os do presente nada pudessem ser sem a sua existência. As releituras ganhavam novas sinuosidades, mais evasivas, cada vez que, à noite, nos dormitórios femininos onde descansava, contava a outras viajantes a minha obsessão com esta cidade. Falava dela como se fosse entidade ética, onde a história nunca deixa entorpecer a vigilância. Os dormitórios em Berlim são o último sopro comunitário do nómada. Nunca fico em hotéis, os hotéis são para quem possui identidade fixa, s...