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Fragmentos



Recado digital:
vizinho, vizinha, quem quer que sejas, vamos beber um café com cheirinho? Pagas tu. Ouvi há pouco o meu irmão dizer que os marcadores de rua estão caros, mesmo os de candonga e não da Crack Kids, donde para a minha bica-boca terás uns minutos e trocos.
Há pelo menos uma desconhecida que se declara interessada em conhecer-te; tens auxiliado, e não dinamitado à semelhança da maioria dos rabiscos dolentes por estes muros, o meu último ano de caminhadas pela capital dos micro-impérios. 
Mas, sabes, o drama é que nada de muito significativo já se consegue guardar. Metade da gente que por aqui passa é entretida pelos média, tudo se esquece e tudo se aceita depois de uma lavagem cerebral-cosmopolitan-protoenGAJAda. Bem que escreveu a MY que o passado era coisa infinitamente mais estável que o presente. Estes anos não são muito diferentes doutros, é o velhinho zarolho de sempre que regressa: limpa tudo o que é incómodo para tingir sua brancura virtual, cria um grupo de corpos desmemoriados e orquestra-os; fascinados balançam com a má música pois não conheceram outra e assim esta, mesmo quando ruim e desfasada, pode ser aspirada, com frescura possível inspirada, do ar insalubre. 
Mas, sabes, o maior medo não é perder a massa muscular das pernas, é que o cérebro se altere e haja uma perda substancial de memória, sem memória a música é uma impossibilidade. Não é ser actual, moderno, coisas dessas gastas pelos sentidos que ligam quem deles não nasceu privado — a bem dizer, tudo o que é moderno deixa de o ser um dia depois; talvez por isso te dediques tanto a esta arte-anarte efémera dos murais. 




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