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Fragmentos


Vídeo de Jorge Feliciano Música de Joana Bagulho, do disco Acção transcrições de peças de Carlos Paredes para cravo



Quando uma espécie de surdo socialista se sentava junto ao gradeamento de uma antiga sala de concertos, atraía-nos para a interpretação das suas mãos minazes, dali brotavam todas as invenções; desde fóruns infrenes que via no telescópio aos além-terra saídos das fendas do toca-discos sem correia. Não eram desvarios sazonais, de outras épocas, eram loops. Nunca lhe ouvimos um queixume quanto à guerra produtora do seu diagnóstico: paracusia de Willis.
No início pareceu-nos incongruente, alguém que só conseguia ouvir no epicentro do barulho infernal, dignificar os sons fracos. 
Agora, já não nos é possível desligar a audição daquelas mãos, nem da recriação de múltiplos exodus. Não é tanto pela fugacidade do presente, antes pela valoração das vantagens de locomoção e portabilidade, que, se é verdade que libertou os corpos do peso dos discos, dos livros, dos negativos por revelar, também encontra reciprocidade na miniaturização das ideias e habilidades e no tolhimento das nossas liberdades. Aquela espécie de surdo socialista ainda não sabia o que eram novos dispositivos de armazenamento e distribuição, cada dia mais diminutos, tampouco que isso iria reduzir os nossos direitos à opacidade. Mas, é possível reinventar aquelas tardes junto ao gradeamento e declarar que ele o previu. Previu? Sim, previu. Que a imaginação estaria em risco, não gozaríamos do direito ao esquecimento, à democratização da fruição das nossas práticas contraporiam a falta de privacidade, a impermeabilidade à vontade de eliminação de entrevistas, frases, deslizes, emitidos na época digital.
Os sons fracos não seriam, assim, uma incongruência, mas um prenúncio da perda do direito à desmemória, tão preciosa quanto o direito dos que a querem fixada. A escalpelização das vidas, dentro e fora da arte, legitimada por actividades designadas culturais, sociais, humanas não encontra correspondência àquilo que fazem, pensam, ou naquilo que se tornaram, por vezes, as pessoas. E, como tal, pode obrigá-las a conviver com o peso dessas lembranças; decorrerá, seguramente, daqui o cinismo da frase «uma vez na internet, para sempre na internet». O mesmo que dizermos que quando o tempo longo nos absolvia de gestos ruins, a célere internet arquivará, eventualmente nalguma nuvem estática. Condena ou condenará, iliba ou ilibará sob pressupostos de natureza moral com variações periódicas. É provável que esta dialéctica, memória pretendida extinta e memória viva ressentida, nos leve ao Eterno Retorno do apreciado prussiano de bigodinho farfalhudo [...].

Bom 25 de Abril.


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