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Fragmentos

 ((Rememorar numa breve nota Despentes))





    A ditadura da socialização pretende que atrasemos os compassos, outras vezes eliminemos, o que vivemos na carne.

Uma revolução, o que tinham em mente estas vagas feministas, e não um reajustamento a estratégias de marqueteiros, medrosos, parasitos. Não se resolve no número, nos mapas, nos adventos. É, até, um dos tiques mais habituais quando alguém aponta criticamente a nudez no reinado, os reis despidos começarem a disparar um número crescente de pessoas x e y, para, assim, provar a patetice do argumento e desviá-lo para um debate com véus, ou seja um quase-debate. Estão aqui a ver? Vejam, vejam. Que não há só gaivotas na terra quando alguém se põe a delirar para evitar um confronto. Que sabem as pessoas sobre nós? Aquilo que apresentamos (e como) a cada uma diz respeito. Sabe-se pouco, ou nada, das reservas de cada alma. E, se ela, a altura do mundo, nos for desprezível, até podemos reinventar-nos e desejar o anonimato. Damos o que queremos dar. E a algumas pessoas não queremos, militantemente, dar nada. Pode ser esse o  poder de qualquer sujeito outrora oprimido.

Tudo o que dá tesão continua a ser o que envergonha, e se despreza. Viver no limbo e contra a instrumentalização das nossas experiências não é um modo de pornografia, antes de consciência apurada sobre todas aquelas pessoas que te sabotarão na penumbra por, também elas, estarem ainda a aprender a libertar-se. 

No capítulo Dormindo com o Inimigo, Virgine mostra bem como um suspiro colectivo impõe os seus dogmas; e é por isso que as prostitutas são o único proletariado que tanto comove a burguesia. Ao longe, adoraram, adoram, e adorarão bonecos (vulgo tokens) que não podem ter. É a asserção da virilidade que precisa de novos modelos, rostos, corpos. Os que há continuarão a servir os de sempre. Posso dizer-vos que nada existe de belo em ter sido maltratada ou violada, que há mães que não estavam preparadas para sê-lo, que matam filhas, que as atormentam, e violam, mas isto seria criar outras possibilidades, sublimar o horror, o protesto, o ignóbil. Ou ver e ensaiar outras realidades.

Mais...

No meu grupo não há nenhuma mulher que não saiba o que é assédio. Não é curioso, é comum, que figuras institucionais que  cooptaram as agendas das minorias — beneficiárias desse ainda chamado sistema corrompido que hoje cospem enojadas — a quem terás testemunhado há uns anos a violência sexual e extractivista de alguns desses cátedrobacocos, com os quais continuam a estabelecer  relações tendo em vista o progresso hierárquico cóóltural, venham agora, depois de te virar as costas e implorar que esquecesses os episódios recorrentes, arrogar-se de porta-vozes e anti-tudo-aquilo de que foram cúmplices quando as outsiders mais precisaram. No burgo lusitano a vontade converteu-se na exposição narrativa com ares camilianos, uma bisbilhotice à antiga, menos dandy à moda do Porto, num formato recente, o das redes sociais. Não é igual para todas, não se prende a um imperativo ético, mas tem favorecido lutas de galos e menos as vítimas. Há quem não goste de artes circenses se não puder escolher bem as tendas e os recintos onde as moscas tsé-tsé, grávidas das fantasias larvares esquerdistas, comparecerão de máscara distintivamente sofrida para sugar o teu sangue fresco. Sinais de tempos já muito beliscados saindo da hibernação, estejamos atentas.

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